sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O início deste segundo ano do novo milênio traz algumas questões ainda não resolvidas do ano anterior, e que farão parte da agenda política envolvendo ciência, tecnologia, universidade e sociedade. Como neste ano haverá eleições, temas como formas de financiamentos à pesquisa e inovação tecnológica, dentre outros, serão pontos de plataformas eleitorais. Cabe neste momento algumas reflexões sobre estes temas.
Um dos aspectos mais importante que perpassa todos os temas voltados à C&T, diz respeito à necessidade de se ampliar os mercados de trabalho acadêmico e empresarial para absorver os mestres e doutores formados, com recursos públicos, a cada ano pelos nossos programas de pós-graduação nas Universidade. Para tanto, há necessidade também de investimentos privados em pesquisa.
Em diversos países, considerados tecnologicamene avançados, mais da metade dos cientistas e engenheiros de pesquisa trabalham nas empresas, enquanto no Brasil esta proporção é muito baixa (~10%). Estes dados indicam que não está acontecendo um fluxo dos recém-doutores para as empresas, e a única opção para estes é continuarem nas Universidades com bolsas de recém-doutor, pesquisador associado, pós-doutorando etc, das agências de fomento federais e estaduais. Esta distorção tem prejudicado o setor privado que deveria estar produzindo tecnologia e interagindo com os grupos de pesquisas das Universidades. A forma desejável seria já trabalhar com alguns alunos dentro das linhas de interesse das empresas. As Universidades também ficam prejudicadas com a ausência deste fluxo, pois sua missão primordial é formar os profissionais altamente qualificados para serem incorporados nos laboratórios de pesquisas tecnológicas das empresas e outros setores. Portanto, é preciso motivar as empresas no sentido de ampliar o mercado de trabalho para os recém-doutores, pois sem pesquisadores altamente qualificados nas mesmas não há desenvolvimento de novas tecnologias e nem inovação de produtos. Como conseqüência, não há competitividade e crescimento do país, a expansão do mercado de trabalho fica reduzida e voltamos ao ciclo original.
Um outro ponto importante neste debate que precisa de uma análise criteriosa é a diferença que existe no Brasil, entre sua crescente participação na produção mundial de artigos científicos e o grande volume de importação de tecnologia de fronteira. Aparentemente, não se está conseguindo traduzir este esforço de pesquisa científica em criação de inovações necessárias para estimular o desenvolvimento econômico.
Dados da ONU indicam que o Brasil se encontra em 43o lugar, entre 72 países, no "ranking" de desempenho tecnológico. Apesar de não ser uma posição muito ruim, o País precisa evoluir, o que só pode ser conseguido através da incorporação do saber cientifico em inovação tecnológica resultando em novos produtos, conseqüentemente, aumentando seu mercado de trabalho, para enfrentar a globalização imposta pelos países mais ricos.
Procurando melhorar este quadro, novas formas de alocação de doutores nas empresas têm sido experimentados pelas FAPs, CNPq e por alguns novos fundos setoriais de apoio à pesquisa. Todas estas iniciativas tentam de certa forma melhorar a relação das necessidades das empresas e o trabalho dos pesquisadores. Porém, há um descompasso entre a tecnologia que a iniciativa privada necessita e os trabalhos de investigação científica.
Há muito tempo é conhecido o papel essencial do sistema universitário no avanço do conhecimento e tecnológico dos países centrais. As Universidades brasileiras têm sido cobradas constantemente por tecnocratas do governo pela defasagem da tecnologia do País e de produzirem um número de patentes per capita muito reduzido. Deve-se ressaltar que a maioria das Universidades públicas sem autonomia de gestão financeira, com problemas das inexistências das políticas de recursos humanos e salariais dos servidores e déficit em docentes efetivos, corre o risco de ter comprometidas suas atividades fins. Não obstante, as Universidades foram capazes de demonstrar a sua capacidade de promover desenvolvimento da C&T em diferentes setores nacionais, como exemplo pode-se citar a tecnologia de prospecção e extração de petróleo das profundezas do mar.
Em recente discurso, o ministro de C&T diz "Cabe ao Estado atuar como agente catalisador e mobilizador de outros atores sociais - comunidade acadêmica e setor produtivo - no reconhecimento da importância da inovação para o desenvolvimento e o papel estratégico das políticas publicas (sic)". Na contramão deste discurso modernizante, o projeto Sivam, para o qual pagamos quase US$ 2 bilhões à empresa americana Raytheon, poderia ter sido desenvolvido pela indústria nacional.
O MCT, seguindo o paradigma de que uma melhor interação entre comunidade acadêmica e setor produtivo pode levar a uma diminuição da defasagem tecnológica do país, lançou ano passado o ante-projeto da Lei da Inovação que dispõe de medidas de incentivo à pesquisa científica e tecnológica e à inovação. Na realidade, é um novo tipo de concepção que visa criar mecanismos de gestão aplicáveis às Instituições Científicas e Tecnológicas e às Empresas de Bases Tecnológicas. No texto do ante-projeto ressaltamos dois trechos que, ao nosso ver, não se encaixam com atual situação das Universidades Públicas como: a) "A instituição... poderá também adotar, caso seja do interesse da instituição a pedido do pesquisador, redução da respectiva jornada de trabalho... " e b) "O pesquisador poderá solicitar afastamento para prestar colaboração.... em empresas de base tecnológica...... O ônus do afastamento do pesquisador recai na instituição cedente.". Ficam as seguintes indagações: -se os docentes se afastarem ou solicitarem redução da carga horária didática, haverá novas contratações? -O déficit de docentes será coberto por professores visitantes e substitutos com contratos trabalho precários? -Temos um quadro de docentes que possa cobrir estes afastamentos?
Não é discutível a necessidade de se criar ambiente mais propício à inovação tecnológica, aproximando a pesquisa universitária e a economia de mercado, utilizando-se de incentivos para aumentar cada vez mais o investimento privado em P&D, pois o país precisa de uma maior densidade tecnológica nos produtos que exporta. Entendemos que uma política tecnológica afeta diversos fatores de desenvolvimento do país, como saúde pública, educação e criação de empregos. Porém, questionamos se esta forma de envolver os docentes universitários nestes programas de capacitação tecnológica não será a dose letal para um sistema universitário público sem autonomia de gestão financeira e sem políticas de recursos humanos e salarial. Este paradigma parece estar em oposição ao sucateamento das Universidades Públicas e os ataques aos diversos Centros de Pesquisa Públicos.
O ante-projeto do MCT está alicerçado no tripé Financiamento Público, Instituições de Pesquisas Públicas e Empresas Privadas. Portanto, para que este crie um ambiente adequado à inovação no Brasil, ele precisa suplantar alguns obstáculos. Aceitar suas possíveis incertezas, com a mesma clareza do seu propósito, pode ser um passo decisivo para um desdobramento positivo e sem truculência, onde todos os parceiros sairiam fortalecidos.
 
 
Vitor F. Ferreira
Editor de QN
 
Os primeiros 100 anos de Prêmios Nobel para Química fornecem um ponto de vista do desenvolvimento da Química moderna. Os prêmios vão desde a química básica, teórica à bioquímica e química aplicada. A Química Orgântica recebeu 25 prêmios: a mais premiada de todas as áreas. A físico-química, envolvendo cinética, termodinâmica e química espectroscópica recebeu 13 prêmios. A bioquímica recebeu 11, embora muitos dos outros prêmios possam, também, ser classificados nesta área. A análise estrutural recebeu 8 prêmios.

>Dentre os países, USA domina com 46 premiações, seguido da Alemanha, com 26 premiados, acompanhado de perto pela Inglaterra, com 25. A França, quarta colocada, tem 7. O único país da américa latina com um prêmio Nobel em química é a Argentina.

> A primeira mulher a receber o prêmio Nobel em Química foi Marie Curie (1911). Mas ela não foi a única: Dorothy Hodgkin (1964) e Irene Joliot-Curie (1935) fazem parte deste restrito clube de mulheres agraciadas com o prêmio Nobel em Química.

Um século de Química Moderna


Uma das definições da Química diz que "é a ciência que estuda a matéria e suas transformações e procura adaptá-las para o bem estar do homem". É graças a química que, hoje, temos automóveis, computadores, máquinas de lavar louças, sabonetes hidratantes, remédios e colchões ortopédicos. O conforto é um produto do século 20 - uma consequência da evolução da Química!

O século 20 foi, sem dúvida alguma, o de maior significado para a química.
O acúmulo de conhecimentos nesta ciência foi maior nos últimos cem anos do que em toda a história anterior. Uma das formas de ter uma visão panorâmica da evolução da química no século 20 é através de uma revisão dos prêmios Nobel conferidos desde 1901 até 2000. O QMCWEB apresenta todos os ganhadores do Prêmio Nobel de Química e as suas pesquisas premiadas.


Tal como o século 20, a entrega de Prêmios Nobel para a Química também iniciou em 1901. Entretanto, na primeira década do século, a única tarefa da academia foi decidir a ordem em que os ganhadores seriam premiados. Para o primeiro prêmio, 11 das 20 nominações indicaram van't Hoff (Nobel_1901). Embora ele, neste momento, já tivesse publicado uma tese dizendo que o carbono apresentava quatro ligações sob uma forma tetraédrica (base da química orgânica moderna), o prêmio foi para o seu trabalho com cinética química, equilíbrio e pressão osmótica em soluções, publicados em 1884 e 1886. Segundo van't Hoff, a pressão osmótica de soluções da maioria das substâncias era igual à pressão gasosa que estas substâncias exerceriam se estivessem na ausência do solvente. Uma excessão, entretanto, ocorria quando o solvente era a água e o soluto era um ácido, uma base ou um sal. Arrhenius mostrou que isto poderia ser explicado, assumindo que estas substâncias, em água, dissociam-se em íons. Arrhenius apresentou esta idéia em sua tese de doutorado, em 1884. A sua proposta não foi bem aceita pela comunidade científica; mesmo assim, Ostwald viajou até Uppsala para trabalhar com Arrhenius. Em 1903, Arrhenius foi laureado com o Prêmio Nobel em Química. Em 1909, foi a vez de Ostwald, por seus trabalhos com cinética e catálise de reações.



Três dos prêmios da primeira década do século foram para pioneirismos na química orgânica: Fischer (1902), Baeyer (1905) e Wallach (1910). Fisher desenvolveu metodologias para a classificação e síntese de carbo-hidratos. Baeyer deu importante contribuições para a indústria química e para a síntese orgânica, sobretudo em seus trabalhos com corantes orgânicos e terpenos. Wallach estudou compostos alicíclicos, não somente o terpeno, mas outros óleos etéreos. Dois prêmios foram pela descoberta de novos elementos: Ramsay (1904) pela descoberta de vários gases nobres e Moissan (1906) pelo isolamento do flúor. Além desta descoberta, Moissan foi o primeiro a utilizar o forno elétrico no laboratório de química. Com este forno, altas temperaturas puderam ser alcançadas, representando um salto na química experimental.

A transmutação de um elemento em outro, sonho dos alquimistas, foi descoberta por Rutherford, conferindo-lhe o prêmio Nobel em 1908. Ele também recebeu várias indicações para o Nobel em Física. Nesta década, um dos prêmios foi para um trabalho que mostrou que uma teoria antiga estava errada. A teoria da Força Vital era defendida mesmo por Louis Pasteur, que garantia que a fermentação do álcool ou de açúcares somente poderia ocorrer na presença de células vivas (fermento biológico). Em 1987 Buchner mostrou que a fermentação é um processo catalítico que resulta da ação de enzimas, sem a necessidade de células vivas. O experimento de Buchner é tido como o nascimento da bioquímica. Ele ganhou o prêmio Nobel em 1907.




Dos prêmios que foram dados a partir de 1911, 5 foram distribuídos para cientistas que deram importantes contribuições para a química Geral e fundamental: Richards (1914), que determinou a massa atômica de vários elementos; Aston (1922), descobridor de vários isótopos e invenção do espectrômetro de massa; Langmuir (1932), que estudou fenômenos de superfície em interfaces; Herzberg (1971) e Ernst (1991), o inventor do NMR. O NMR é muito utilizado na química e, hoje, encontra aplicações na medicina e biologia.
Embora o primeiro prêmio Nobel, para van't Hoff possa ser, em parte, considerado relacionado à Termodinâmica, foi somente a partir da segunda década que esta área passou a ser laureada com o prêmio. Já em 1920 Nernst ganhou o prêmio, por estudos em termoquímica; ele não somente descobriu a "terceira lei da termodinâmica" como mostrou que é se possível calcular a constante de equilíbrio de uma reação com bases em dados térmicos. Sua versão para a 3a lei da termodinâmica foi melhorada por Arrhenius e foi demonstrada correta, experimentalmente, por Giauque, que ganhou o prêmio Nobel de 1949. Ele também demonstrou que é se possível determinar a entropia através de dados espectroscópicos. Outro prêmio para a Termodinâmica foi para o trabalho de Onsager, que lidava com a termodinâmica de processos irreversíveis. Com a ajuda da mecânica estatística, Onsager desenvolveu a teoria das relações recíprocas, que lhe conferiu o prêmio Nobel em 1968. Em 1977 foi a vez de Prigogine, com sua teoria de estruturas dissipativas, em sistemas fora do equilíbrio.explorada anteriormente, foi só no século 20 que passamos a conhecer a composição química dos seres vivos. O QMCWEB publicou vários artigos sobre temas relacionados; entre eles, um sobre proteínas e comunicação intercelular. Confira em:


Tudo o que sabemos sobre ligações químicas vem de trabalhos feitos neste século. Pauling recebeu o prêmio Nobel em Química em 1954, por vários trabalhos relacionados à ligação química. São deles os livros "Introduction to Quantum Mechanics" (1935) e "The Nature of the Chemical Bond" (1939). Em 1962, Pauling também foi laureado com Prêmio Nobel da Paz, sendo este a única pessoa a receber dois prêmios Nobel inteiros até hoje. A teoria o orbital molecular, comumente ensinada aos alunos de química geral, foi desenvolvida por Mulliken, o que lhe conferiu o prêmio Nobel em 1966.

A elucidação de estruturas químicas é uma arte que, no século 20, se tornou uma tarefa rotineira. Debye (1936) ganhou o primeiro prêmio por aplicação de difração de raios-X na química, embora tenha sido para a determinação de momento de dipolos em gases. Entretanto, esta técnica passou, logo, a ser usada na determinação de estruturas.
Muitos prêmios foram conferidos pela determinação de estruturas de macromoléculas. Sanger ganhou dois: em 1955, sozinho, pela determinação da estrutura da insulina; e 1980, dividiu o prêmio por métodos no sequenciamento de nucleotídeos em amino-ácidos. Perutz e Kendrew (1962) dividiram o prêmio pela elucidação da estrutura da hemoglobina. Dois anos depois, Hodgkin ganhou o prêmio pela elucidação da estrutura da penicilina e vitamina B12.
A estrutura tridimensional de proteínas e enzimas, entretanto, somente foi determinada após os trabalhos de Michel e Deisenhofer, que descobriram como cristalizar proteínas e enzimas. Juntamente com Huber, eles dividiram o prêmio Nobel de 1988.

Alguns prêmios foram para a química inorgânica. O primeiro foi em 1913, para Werner, que estudou compostos de coordenação. Ele praticamente criou este campo de estudo que, hoje sabe-se, foi extremamente importante para o desenvolvimento tecnológico do século 20. A síntese da amônia, a partir de seus elementos, foi o motivo da premiação para Haber (1918); o aprimoramento desta técnica e o desenvolvimento do método industrial deu a Bosh o prêmio, em 1931, juntamente com Bergius.descobrimos que todas as instruções para a construção de um determinado ser vivo estão impressos em algumas macromoléculas, residentes em cada uma de suas células. Terminamos o século com o mapeamento completo de todo o genoma humano e, logo, entraremos na era da medicina genética. O QMCWEB já falou sobre o código genético e a origem da vida. Confira em:




Muitos dos trabalhos premiados com o Nobel viraram aplicações na indústria ou na medicina. É o caso do trabalho de Hevesy (1943), com marcadores radioativos, que também tem aplicações na geoquímica, ou a datação de carbono-14, criada por Libby (1960).

A química orgânica praticamente nasceu neste século, e vários prêmios foram dados para esta área. Barton e Hassel (1969) dividiram um prêmio por suas contribuições no estudo da conformação espacial de átomos em moléculas, a estereoquímica. Em 1975, o prêmio também foi para a estereoquímica, para Warcup e Prelog. Fischer e Wikinson dividiram o prêmio de compostos rganometálicos, os "sanduíches", em 1973. Lehn, Cram e Pedersen (1987) criaram estruturas orgânicas capazes de interagir com cátions metálicos, mimetizando o comportamento de enzimas e proteínas. Olah (1994) ganhou o prêmio por suas contribuições na química do carbocátion - tema frequente nas aulas de química orgânica! Curl, Kroto e Smalley descobriram os fulerenos, onde 60 ou 70 átomos de carbono estão ligados covalentemetne para formar uma espécie de bola.